O SOCIO-CONSTRUTIVISMO DE VIGOTSKY:
UMA ANÁLISE À LUZ DO FILME “NELL”
Artigo apresentado ao Curso de Mestrado em Ciências da Educação da Universidade Del Salvador.
Orientador: Prof
UNIVERSIDADE DELSALVADOR
Buenos Aires, Argentina, 2012
O SOCIO-CONSTRUTIVISMO DE VIGOTSKY:
UMA ANÁLISE À LUZ DO FILME “NELL”
INTRODUÇÃO
O presente artigo tem por objetivo abordar um tema epistemológico confrontando-o com um conteúdo veiculado em mídia. Será abordada aqui a teoria do sócio-construtivismo de Vigostsky em contraponto ao filme Nell, destacando os pontos em que estes discordam e complementam-se, compreendendo de maneira ilustrativa, ao final do trabalho de que maneira o filme traz conteúdos e reflexões que se associem à teoria.
Será trabalhada aqui uma perspectiva associativa envolvendo as reflexões e suas ligações com a teoria escolhida, construída com base em pesquisas bibliográficas acerca do sócio-construtivismo de Vigotsky, além da crítica à obra cinematográfica, cujo contato sob ótica reflexiva se deu anteriormente.
O texto prosseguirá abordando o sócio-construtivismo de maneira geral, bem como a síntese da obra a ser relacionada (o filme escolhido), acompanhada de crítica. Em seguida é feita a comparação analítica de confronto entre obra e teoria escolhidas, onde cada ponto em que foi percebida a relação é apontado e destrinchado, confirmando, conforme se avança no texto, a existência de uma relação entre a obra e o tema epistemológico selecionado.
É relevante a aplicação da teoria sobre conteúdos relacionados, de maneira que se pode, através desse exercício de confronto, compreender melhor como a teoria se aplica às realidades e como hipóteses de determinados contextos podem nos levar a aplicações diversas de teorias epistemológicas. Este tipo de iniciativa reafirma a relevância dos temas epistemológicos e os valida quanto à sua atualidade e aplicabilidade diversificada e abrangente.
O SOCIO-CONSTRUTIVISMO DE VIGOTSKY: UMA ANÁLISE À LUZ DO FILME “NELL”
A partir deste ponto será descrito o conteúdo e informações pertinentes ao filme “Nell”, obra selecionada para a presente análise. Trata-se de um longa-metragem dirigido por Michael Apted. Em 1994, nos Estados Unidos, Apted filmou o drama que trata de uma mulher encontrada numa floresta afastada da cidade, com comportamento curiosamente selvagem, primitivo, que é estudada por intelectuais.
Nell é uma mulher de aproximadamente 30 anos que viveu isolada numa floresta da Carolina do Norte, acompanhada apenas da sua mãe. Esta foi vítima de AVC e criou Nell, até que faleceu repentinamente, quebrando o único laço da filha com a humanidade, já que a irmã de Nell havia falecido anteriormente, ainda criança.
A trama indica que a mãe de Nell foi vítima de estupro e por isso, sem apoio de amigos, parentes ou da justiça, decidiu optar pelo isolamento, como forma de proteção. Com a sua morte, Nell passa a viver de maneira aproximada ao modo de vida dos animais.
O dialeto da personagem era embasado no da mãe, que por sua vez tinha dificuldades na fala em conseqüência do AVC. Assim, Nell reproduzia todas as suas falhas de dicção e com sua vivência, estabeleceu esta linguagem própria.
O médico da cidade, Dr. Jerome Lovell, ao necessitar constatar a morte da mãe de Nell, decide estudar o seu comportamento, intrigando-se com a sua capacidade de sobrevivência, ainda que naquelas condições de isolamento, ficando fascinado também pela sua peculiar linguagem.
Em princípio esta linguagem aparentava ser algo novo, mas logo foi associado a uma distorção do inglês. A intenção de Lovell é educar e proteger a moça, no entanto, seu conhecimento e preparo científico se mostram insuficientes para lidar com situação tão específica, o que revela a profundidade e complexidade do problema de sociabilização vivido por Nell.
Lovell busca a ajuda de um profissional mais preparado, e então entra na trama a psicóloga Dra. Olsen, que também estuda o comportamento de Nell. São concedidos pela justiça três meses de período para estudo, sendo que ao final deles, a justiça interviria novamente decidindo pelo futuro de Nell.
Analisando a situação, Olsen crê que Nell necessite de tratamento psiquiátrico, por achar que esta apresenta problemas notoriamente mentais. Divergindo da sua análise, Lovell acredita que Nell é independente e mentalmente saudável, e que apenas necessita de bom convívio social para desenvolver um comportamento tido como normal.
Apesar das discordâncias, os médicos decidem trazer Nell a um convívio civilizado na cidade expondo-a a uma experiência, para que a própria Nell soubesse, ao final, decidir qual dos dois contextos era mais benéfico para sua vida.
Quando o período de estudo termina, a justiça decide que Nell permaneça na companhia de Lovell e Olsen e ela prova que é capaz de viver com autonomia. A situação se resolve numa adaptação, onde Nell permanece vivendo sozinha na floresta e cinco anos depois, os médicos e os amigos de Nell encontram-se na sua moradia (a floresta) para comemorar o seu aniversário.
De maneira geral, numa análise superficial, nota-se que o filme tem a pretensão de transmitir a seguinte mensagem: a convivência em sociedade é determinante na formação de um indivíduo; tudo que somos está ligado ao relacionar-se com o outro. E de fato, não se pode negar esta afirmativa.
Mas, o que se pode inferir além desta afirmativa? Como esta obra pode ser relacionada aos pilares do sócio-construtivismo de Vigostky? O que o filme Nell tem a nos dizer que venha a ilustrar os estudos vigotskyanos?
Vigostky tem sua imensa parcela de contribuição na repercussão das idéias acerca da interação entre homem e meio. Seu enfoque na relação entre desenvolvimento e aprendizagem se dá com base na premissa de que as interações sociais, muito além das questões biológicas, são o que impulsionam o desenvolvimento humano.
Para Vigotsky, as experiências de cada um, suas trajetórias, convivências, contextos e nível de conhecimento, compartilhados e trocados em e no grupo, gerarão ampliação das capacidades individuais e coletivas.
Ora, o sócio-construtivismo de Vigotsky defendia que o desenvolvimento da inteligência era conseqüência da convivência social. Nesta interação social estaria a cultura, que também desenvolve o indivíduo, já que só é construída a partir do momento que existe o outro.
O conhecimento então se construiria, para o pensador, através da mediação. Aqui a relação entre sujeito e objeto é sempre mediada por outros sujeitos, o que faz com que a teoria difira do construtivismo, onde se enfoca a ação do sujeito sobre a realidade.
Se no construtivismo o desenvolvimento intelectual humano se daria por ação do sujeito sobre a realidade, no sócio-construtivismo esse desenvolvimento é oriundo da ação do mesmo sujeito, sobre a mesma realidade, mas com o fator interferente e determinante do sócio-construtivismo: o outro, o mediador de todas as relações.
Esse outro, por sua vez, além de mediados é também mediado, numa simbiose onde todos mediam-se e todos ampliam suas capacidades coletivas e singulares. Como resultado dessas relações mediadas têm-se a interpretação, criação e atribuição de significados ao mundo que os cerca, formando a cultura. Daí, têm-se que o ser humano é formado com influência direta dos que o cercam (os outros) e do que o cerca (cultura).
Então, deixando-nos enveredar ainda mais nessas reflexões para compreender o socio-construtivismo, se há relações entre humanos e se há cultura, inevitavelmente há também história.
Chegamos aqui à inferência de que o desenvolvimento e a aprendizagem humana estão diretamente ligados ao social (o outro e as relações), ao cultural (as interpretações e representações dos mediadores-mediados) e ao histórico, inerente ao social e ao cultural e por eles também influenciado.
Entende-se que o aprendizado do ser humano é conduzido por outro mais capaz, o mediador. A mãe de Nell era esse mediador, e o fez com eficiência, visto que todo conhecimento de Nell era por ela conduzido, mas, com sua ausência, Nell torna-se alguém sem mais referenciais, numa situação onde podemos afirmar que ela estaria estagnada em desenvolver novos conhecimentos, pois, sem novas interações sociais pouco tinha para construir. Sua relação com o mundo era exercida sem mediação.
Um aspecto notório, de rica aplicabilidade e extensivo debate seria a linguagem de Nell. A personagem, mentalmente saudável, tem uma linguagem peculiar justamente porque foi capaz de aprendê-la com a mãe, que tinha problemas na fala. Ou seja, se Nell tinha aquela linguagem isso se devia à única oportunidade de convivência com o outro que teve.
Como, por coincidência, a sua mediadora tinha problemas na fala, Nell reproduzia esta característica não conseguindo se comunicar tão eficientemente com os demais humanos que conheceu, o que comprova a exata influência do mediador sobre o mediado. Então, a linguagem ensinada, levou junto consigo os hábitos e gestos específicos do mediador (as fonéticas diferenciadas por conta de paralisia facial oriunda do AVC). Por não ter outra referência, Nell jamais saberia que a linguagem da mãe era diferente, pois não tinha contato com mais um mediador além dela.
É interessante ressaltar que é justamente a linguagem que Vigotsky considerava fator tão importante. Ele defendia que através dela é que existe a possibilidade de se intermediar conhecimento. Foi por isso que foi tão difícil para Nell adaptar-se e adquirir novos conhecimentos e capacidades, já que a linguagem dela, ao ir para o contato com os outros seres humanos, era tão diferente.
A linguagem seria, na verdade o primeiro aprendizado resultante da convivência e das relações sociais e através dela se dariam todos os aprendizados daí por diante. Ela é então, determinante na construção do aprendizado a partir das relações.
Nota-se também que determinados comportamentos sociais aprendidos só existem por causa das relações que temos. Assim se dá também com o conhecimento científico, o formal. Nesse caso é ainda mais imprescindível a relação social para construção de algo, pois, se para o construtivismo o sujeito modifica o meio e assim é possível construir ciência, no sócio-construtivismo o meio inclui o outro. Assim, é impossível modificar o meio sem também modificar e ser modificado pelo outro.
Quando Nell conheceu o meio além da floresta, as pessoas que eram parte dele, o novo mundo civilizado, o aprendizado se deu de maneira que ela foi modificada e trouxe também novos horizontes de reflexões para os cientistas que com ela conviveram, modificando-os diretamente, na tão enfocada troca mútua da qual fala Vigostky.
Ambos os envolvidos nesta relação aprenderam com o outro acerca daquela nova e curiosa forma de lidar com o mundo, pois, se Nell era tão estranha para os civilizados, assim eram estranhos também aqueles para ela.
O tópico a seguir trata das considerações finais e resume as principais contribuições proporcionadas por este estudo, bem como as principais inferências ás quais se pôde chegar.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Através do presente estudo, pôde-se fazer uma breve análise aplicada do sócio-construtivismo em espaço extra-escolar, refletindo sobre a gênese do conhecimento não-formal, dependente das relações sociais, culturais e históricas.
Diversas considerações e inferências podem ser aqui registradas como contribuições ao aprendizado proporcionadas por este estudo. A primeira afirmação que se pode citar é a de que o ser humano somente aprende com o meio, e no meio está incluso o outro.
Quando a personagem saiu de um meio solitário para um tão diversificado em seus mediadores, pôde vislumbrar o quanto havia ignorado. Da mesma forma, ao entrar em contato com um mediador tão diferente (Nell), os cientistas puderam conhecer novos conceitos acerca daquilo sobre qual já haviam formulado conceitos anteriormente.
Acerca da linguagem, este importante aspecto do filme que se relaciona tão intimamente com as idéias de Vigostky, muito se pôde associar. A dificuldade central, a principal barreira entre Nell e o mundo civilizado é a sua comunicação diferenciada. Isto mostra como a linguagem é importante para o estabelecimento e manutenção das relações sociais, que por sua vez são fundamentais ao aprendizado, fazendo-nos inferir então, que a linguagem é base para o aprendizado.
Quanto à fala distorcida de Nell, nota-se neste ponto a forte influência do mediador (mãe) sobre o mediado (Nell), no momento em que a forma, as particularidades, os detalhes de como se faz mostram-se tão determinantes no que se faz. Assim, percebe-se que a cada nova mediação novas formas de fazer são também aprendidas, porque cada mediado e cada mediador são únicos, tornando cada mediação uma experiência também exclusiva. Este talvez seja o ponto que mais elucida o fato de o outro/meio influenciar tanto na aprendizagem, principal pilar do sócio-construtivismo.
Este estudo contribuiu com o aprendizado acerca do sócio-construtivismo, assim como trouxe à luz sua aplicabilidade, num exercício que pode ser repetido diversas vezes, como forma de clarificar este tema epistemológico.
REFERÊNCIAS
NELL. Direção de Michael Apted. EUA: 1994. DVD. (115 min): Sonoro. Color. Legendado. Port.
VYGOTSKY, L.S. A construção do pensamento e da linguagem. São Paulo: MartinsFontes, 2001.
___________. A formação social da mente. São Paulo, Martins Fontes, 1991, 168p.
___________. Fundamentos da defectologia. Madri: Visor, 1997
___________. La Imaginacion Y El Arte En La Infancia (Ensayo Psicologico). S. de C.V, Hipanicos-Ediciones Y Distribuciones, 1989.
___________. Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem. SP, Icone, 1988.
___________. Pensamento e linguagem. 3. ed. São Paulo. Martins Fontes, 1991a. 135p.
___________. Psicologia e Pedagogia. Lisboa, Estampa, 1977.
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